Segunda semana

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No Orient Cineplace Boulevard - 15 - 19h15 - 21h30

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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Filme de Jerry Lewis no "cinema demais"

No meu livro "cinema demais", lançado em 2014, nas páginas 125 a 126, comentário sobre "O Otário" (The Patsy), filme escrito por Jerry Lewis, com direção, produção e interpretação do comediante, que faleceu no domingo, 20. Foi visto no Cine Íris, em 1969:
"O Otário"
"The Party" é a obra mais lapidada de Jerry Lewis. Sua perfeição estrutural em algumas sequências é algo notável e encontrado em alguns filmes de Buster Keaton ou Charles Chaplin.
Uma sátira violenta, que não segreda a "oficina de sucesso" e todo o mecanismo de formação do mito - trabalho de laboratório de "experts" nem sempre feito com consciência - é desvendado ao espectador. O personagem interpretado por Lewis, um "errand boy" metamorfoseado asperamente num futuro grande astro, mostra no decorrer de sua evolução, uma comicidade orgânica, simplesmente natural, como o próprio Lewis. E nem todas forjas de formar atores produzirão um dia uma comicidade tão pura como aquela obtida por Stanley, captadas em suas fontes naturais. Stanley, o futuro comediante, igual a Lewis, se vale apenas da intuição para alcançar a fecundidade burlesca.
Na sequência do "night club" em que ele estréia como cômico, a platéia é fria e violenta. Agastada pelos irritáveis chavões natos da sofisticação dos "showmen" feitos em série, ela se impede de dar valor a apresentação atrapalhada do novo artista.
Seguindo a técnica de praxe, basta uma nova pincelada, uma pequena substituição no texto da piada gasta pelo uso, e o novo homem-espetáculo está pronto para fazer delirar multidões. Todavia, o imprevisível se instala para tortura de seu preparador e deleite do público: Stanley, em sua estréia, inexperiente e nervoso, esquece o texto da piada e perde o fio condutor da sua apresentação. Obrigado pela contingência (abandonado num palco perante um público prestes a executá-lo - visão subjetiva do fuzilamento), Jerry Lewis liberta, improvisando, seu inconsciente atormentado em forma de um humorismo dramático.
Assim, constrói um dos momentos mais geniais de toda, ou quase, a comédia americana: Stanley gagueja, escorrega, canta trechos de canções infantis, derruba o microfone, retoma atrapalhadamente o texto da anedota e vai estruturando uma "gag" perfeita.
E com essa marginalização aguda que o aproxima de Chaplin e o torna um personagem popular. A arte lewisiana está voltada para as massas atingindo-as significativamente porque suas problemáticas são as mesmas do homem comum, sua condição é a mesma do homem atual, seus personagens são a medida exata dos personagens do seu povo.
Através do seu personagem, Lewis faz da sua arte uma arte de mudança e criação. Além de revitalizador da comédia moderna, ele é um dos principais realizadores do cinema americano e, sem concorrência, o maior humorista do momento.

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